terça-feira, 28 de abril de 2009

não. não há sossego. não há descanso. as coisas chegam, empilhadas. sem pausa. sem respiro. e agora, chegada de uma madrugada inominável, despejo toda a minha descrença com o que poderia vir a ser. ana, me diz, minha querida ana... você acredita? você ainda acredita? penso eu, querida ana, desde o dia em que os ovos se quebraram e escorreram pelas redes da sacola: o que mais existe além disso tudo? qual segredo pode haver no tal rizoma? não. não posso encontrar. não. não acredito. não agora, com o pneu furado, o carro desbalanceado e o sorriso, ainda, de um lado só. meu desejo é grande. e eu, além de ser pequena, não tenho sentido as pontas dos dedos. tornei-me um peixe. sem afeto. com afeto demais. e só. só isso. com afeto em gota escorrendo pelas redes da gaiola.

domingo, 5 de abril de 2009

"é temerário cavar abismos nos afetos humanos; não que eles se aprofundem ou escancarem - mas voltam a fechar-se com enorme rapidez!"
nathaniel hawthorne, em "wakefield".

lassidão

ana caiu no buraco do laço.
o corpo liquifez-se nos calafrios.
exauriu-se, inclusive, de chorar.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

o que vai e o que fica

confiança.
cabeçada.
a maçã de ana incha-se.
ai, ana!
muitas dores.
calafrios.
a boca, um fel só.
banhos de cama, anti-inflamatórios, corticóides e antibióticos.
restam vidas?
restam dores?
restam laços?
restam ossos?
doem os ossos.
a lombar não se aguenta.
as visitas chegam
tarde.
tarde é o tempo da cura.
grande é o cansaço.
ana ainda quer o vento
e corre
(sufocada)
sem poder se levantar.
ana invoca a concentração.
há dias seus olhos não se fixam.
ana tem agora a face desfigurada.
sorri, quando sorri, de um lado só.
como prosseguir?
pode ana?
vai ana!
ritornello!
ana afoga-se no ofurô de batom, sopa de abóbora e brisa
e continua sua infinita e inadiável perseguição.
ana dança silenciosamente.
ana deseja o vento.
e ela o tem... sim! eles se têm!
aos trancos, cabeçadas, contratempos, tempestades e anacruses,
ana leva, dia após dia, seu véu para voar.